terça-feira, 22 de agosto de 2017

seria a Esperança o Inferno dos Homens?
infrutífera
distorcida
confundida entre o real e o infinito

um sorriso sem maldade
você é quem vive
pra descobrir se isso vale

aquela palavra que ama tanto
mas que não consegue
alcançar sua importância

percepções que se confundem
sentimentos que se afogam
num devir que nunca chega
é esperança que tá morta

deliberadamente abortada

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Busca ou loucura

É interessante como nossa busca por dar sentido às coisas, pode nos levar a formular teorias e percepções que beiram à loucura. Mas, por outro lado, foram os loucos do passado que mudaram o curso da História ao longo dos anos em que suas ideias não se encaixavam com a realidade da época. E que séculos depois puderam enfim serem reconhecidas e utilizadas. Pois, vejam só que loucura, a Terra girar em torno do Sol! 300 anos atrás, quem afirmasse isso era tido como demente, fora de si, herege, bruxa: digno de morrer na fogueira. E quantos não foram?

Então a linha que separa a ampla certeza da loucura é muito tênue. Para quem duvida.

E nossa eterna busca por tentarmos entender e dar sentido a tudo, nos levará à sabedoria universal ou à loucura niilista coletiva? Pois ao criarmos nosso mundo nesses moldes tão volúveis e líquidos, nossas concepções tornam-se descartáveis, os valores se perdem e nos tornamos subprodutos de algo que nem alcançamos mais – uma vida sem sentido afinal. É um salto para o nada, um precipício vazio de significado.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Após assistir Making a Murderer

Após terminar de assistir à série-documentário Making a Murderer, o sentimento é de ter levado um soco na boca do estômago. A mão pesada e inexorável do sistema. A autoridade do Estado com todo seu aparato para perpetuação do seu poder, custe o que custar. Manipulando cenários para que haja a aceitação geral de que se deve apenas encontrar um culpado, e não necessariamente a verdade sobre os fatos. A sensação de impotência, de fraqueza, de revolta e, principalmente, de injustiça. Aquela Justiça que deveria sempre ser cega e fiel à premissa de que qualquer cidadão é inocente até que se prove o contrário; e a mídia faz seu pérfido papel contra isso perpetuando diariamente sua narrativa pós-verdade, condenando pessoas antes mesmo delas merecerem algum tipo de julgamento legal - a opinião pública de espíritos fracos agradece o alimento-lixo fast food de manchetes baratas. Essa Justiça que, nas mãos de mal intencionados (e por aí tem muitos!), serve como instrumento para justificar e/ou ocultar atos hediondos de quem detém o poder. Instituições que buscam, antes de tudo, manter sua "reputação" imaculada para deixar as coisas como elas estão - a seu favor, é claro. E sim, é muita ingenuidade pedir para quem detém o poder para mudar o poder.
Infelizmente, só quando algo parecido acontece conosco ou alguém próximo é que de fato entendemos as falhas e a podridão desse sistema.
Making a Murderer nos faz sentir assim.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

É muito mais cômodo despejar nos outros a razão de todos os problemas do mundo. É menos trabalhoso ao intelecto também. Generalizar e se eximir da culpa, com a típica vida de pessoa de bem, de bons costumes, dos arrotos de demagogia barata nos almoços de família em volta do gado morto à mesa. Limitada visão e rasa análise sobre os fatos e sobre as pessoas. Destilando em vinho mórbido sua moral excludente. Tudo para conseguir deitar-se à noite com a cabeça no travesseiro crendo que fez seu bom papel para a sociedade e que nada manchará sua imagem de justiça seletiva e quase divina. Os céus o aguarda, com ruas de ouro pilhado das Américas, outrora a terra invadida infestada de seres descartáveis sem alma, sem pólvora e sem igreja.
O inferno são os outros, já era dito décadas atrás. Mas, no final, opositores e aliados compartilham do mesmo fogo que arde nossos corações, pela nossa pele, chama nosso ódio ou aquece nosso amor.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

um remédio
algo que me equilibre da corda bamba
vertigem nesse precipício aos meus pés
escuridão sempre a me chamar

um antídoto
para não mais passar o vírus que há em mim
algo que dê cor às minhas palavras ao vento
o céu sempre a me chamar

do céu ao inferno
de um segundo a outro
a me balançar
desequilibrar

cair

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

“O livre comércio, isto é, o livre monopólio, é a santa aliança dos grandes feudatários do capital e da indústria, a argamassa monstra que deve terminar em cada ponto do globo a obra começada pela divisão do trabalho, pelas máquinas, pela concorrência, pelo monopólio e pela política econômica; esmagar a pequena indústria e submeter definitivamente o proletariado. É a centralização em toda face da terra desse regime de espoliação e de miséria, produto espontâneo de uma civilização que começa, mas que deve perecer logo que a civilização tiver adquirido consciência de suas leis; é a propriedade em sua força e sua glória. E é para introduzir o consumo desse sistema que tantos milhões de trabalhadores estão famintos, tantas criaturas inocentes ainda amamentando atiradas no nada, tantas jovens e mulheres prostituídas, tantas almas vendidas, tantos caracteres emurchecidos! Se ao menos os economistas soubessem de uma saída para esse labirinto, de um fim para essa tortura. Mas não, sempre! Nunca! Como o relógio dos condenados, é um refrão do apocalipse econômico. Oh! Se os condenados pudessem queimar o inferno!”

— Sistema das Contradições Econômicas ou Filosofia da Miséria - Proudhon

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

"
Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria.
A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista.

 
— O Povo Brasileiro, p.120 - Darcy Ribeiro.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Por um desses caminhos

Alguns absurdos pra contar, era o que ele tinha, era o que sempre quisera ter coragem de dizer. Sentir o que estava à sua volta e recriar seu universo em algo mesmo incompreensível, pois o que deseja parece não ser racional. Engana-se. Acostuma-se com o cotidiano. Quantos sonhos já desperdiçara por ele próprio não acreditá-los? Então os deixa voarem para o céu e se transformarem em estrelas, apenas pontos distantes de luz e energia - à noite a vislumbrar. Quem sabe alguém ainda chegue a viajar na velocidade da luz, muitas histórias vai encontrar por esses caminhos. No dia a dia, não. Cala-se. E na solidão revive situações. Pena que só para ele mesmo.

Foi então numa de suas caminhadas solitárias pela cidade que viu, ao longe, seu pai. Furtivo, não fez questão de se mostrar, apenas observá-lo comprando pães numa padaria qualquer. Fazia muitos anos que não o via e ainda não sabia se sentia ou não saudades. Mas ficou impressionado ao constatar que o velho não envelhecera quase nada desde a última vez que o vira. E ele, Rubian, já tão castigado pelo tempo...

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Visitante


Alguém bate à porta. A essa hora, acho um escrúpulo. Só pode ser notícia ruim, pois já começou mal em me despertar do meu sono leve. Desgraço-me por ter ouvidos tão sensíveis. Amigo também certamente não é, sendo que já perdi todos por conta da minha vaidade e egoísmo.

Penso então em não atender, fingir que não tem ninguém em casa, que viajei, que estou morto... Olha só, minha tendência ao sumiço!

Mas apesar de tudo eu sou curioso... Porém não mais que preguiçoso... Não! Não vou me levantar! Oras, é o meu momento de descanso. Já não basta a insônia que, aliada a minha preguiça, me sujeitam a não sair mais de casa, e, sem dormir, jogado na cama, só me levam a pensamentos de tristeza, solidão e desesperança.

As batidas continuam, insistem na sua inexorável operação. No relógio digital ao lado da minha cama, marca, precisamente, 01:15:11. Parece até um horário proposital do meu visitante indesejado. Esses números me assustam por algum motivo misterioso. Tem coisas que não se explicam.

De repente, silêncio.
Espero um pouco...

Então, após um rápido intervalo, as batidas voltam da mesma forma. E esses intervalos entre as batidas tornam-se abissais: é como se fossem o anúncio da eternidade que se aproxima de mim. Eu sempre apreciei muito o silêncio, mas esse silêncio gela minha espinha. Evoca o vazio do fim dos tempos, as chances sem volta, o não-futuro escuro. O fim definitivo da passagem do tempo.

Não sei se para meu alívio ou desespero, as batidas na porta rasgam novamente o silêncio e me despertam do meu estado de torpor.

Fico então no escuro, quietinho, deitado debaixo do cobertor: só com os olhos de fora. Um medo mortal assola meu espírito. Não sei por quê, mas sinto calafrios como se a morte estivesse ali. Será que não vale nem uma última partida de xadrez?

As batidas implacáveis se repetem agora mais fortes, impacientes.

Sete pancadas eu contei.
Seguidamente que chegam a tremer todo o meu pequeno e sujo apartamento.

Sete pecados.
Sete palmos.
Sete anos que recusei o seu amor.
Sete batidas novamente.
A sete palmos.
Enterrado.
Quem me bate a porta?

quinta-feira, 28 de abril de 2016

"Os homens superiores não se fazem pela força de seus sentimentos, mas pela duração dos mesmos."
- Friedrich Nietzsche, em Além do Bem e do Mal.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

#Anotações: Demian - Hermann Hesse.

Um livro humano na sua mais pura essência. Acompanha a ascensão da individualidade de Emil Sinclair, um jovem que se desgarra das convenções, da educação patriarcal e da moral advindas do universo familiar em que nasceu. Para isso, atravessa por dois mundos: o luminoso (ideal), constituído pelo seu ambiente familiar, e o sombrio (real), constituído pelo mundo externo com todos os seus encantos, mistérios e medos. Dessa dualidade de realidades em conflito nasce sua individualidade. Assim ele cria suas próprias regras, seu sentido de vida e vislumbra o nascimento do seu eu emancipado.

A trajetória, porém, é árdua. O caminho se dá por intensas reflexões sobre as imagens inconscientes de seus sonhos (psicologia junguiana) e reviravoltas de seus ideais e crenças a partir da observação do mundo que o cerca e assusta. Revolta-se com a realidade e com a sociedade burguesa do seu tempo. E assim como na filosofia de Nietzsche, não admite que os seres humanos sejam reduzidos a rebanho, o qual aceita tudo o que lhe impõem de forma servil e resignada.

Emil Sinclair encontra-se então em si mesmo, ou assim irá perseguir até o fim dos seus dias, construindo sua própria história de vida no mundo. Uma jornada tendo como guia e amigo: Max Demian.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Vozes no meu subsolo

Vivo no meu subsolo. Aqui vem se acumulando a poeira trazida pelo vento da superfície, sempre que você abre a porta e me convida pra sair - e eu digo não. Um rápido instante até eu voltar à solidão. Meu íntimo calabouço.

Desacostumado à atmosfera lá de fora, quase me sufoco ao respirar. Pois a poeira trazida pelo vento é algo externo que não faz parte desse meu habitat. Nem de mim. Assim insisto em querer acreditar.

E é engraçado como não cismo em tentar escapar. Em escavar minhas velhas angústias e ver o mar, em alcançar o solo e ver o sol. Eu troco os sabores da vida por um pouco de paz.

Aqui sobrevivo com pouco. Minhas débeis palavras jogadas no chão empoeirado, inertes e já sem significado, é o que me satisfazem e me alimentam no momento. Porém não me dão esperança. Procuro disfarçar.

Mas como você mesmo diz, todos nós somos feitos da poeira das estrelas: talvez essa mesma poeira que insiste em entrar por minha porta. Então são as vozes das estrelas me dizendo pra tentar, tirar-me do sossego. E me lembrar de que de fato viemos da mesma matéria estelar. Um resgate universal.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

o que sobrou

e a graça toda acabou, não é mesmo?
o que sobrou foi só esse gosto amargo
na minha boca que seca todos meus sentidos
o meu sangue gelando meu coração de espinhos

realidade que não consigo capturar
minhas conexões são rompidas
relações sociais destruídas
então eu olho pra você e não esboço reação
de fato não tenho mais nenhuma emoção

acontece que não estou ali
mas onde eu estou de verdade?
a graça toda acabou
o gosto amargo é o que sobrou

e quando todos vão embora
as luzes que se apagam
o escuro da desesperança
é somente o que me sobra

então eu não consigo dormir

quarta-feira, 29 de julho de 2015

rubian (alter ego onírico, parte II)

Rubian, um jovem de vinte e poucos anos que acha já ter vivido tudo na vida, e que todos seus sentimentos futuros serão apenas resquícios dos que já sentira antes. Ele ainda não compreendeu a finitude do seu tempo se esgotando como areia numa ampulheta. Não sabe também que seu retrato mais fiel lhe surge todas as manhãs, logo após que acorda. Sua incompreensão de si mesmo desespera-o profundamente. Vai ver por isso desacredita tanto no futuro e não consiga identificar suas verdadeiras necessidades. Por mais que ele passe horas a pensar, não encontra saída desse labirinto (o deserto é o pior deles). Pensa demais, e dá infindáveis voltas pelos mesmos caminhos. Dá infindáveis voltas em círculo sem perceber.

Nos momentos logo após despertar dos sonhos mais profundos é que ele consegue uma rápida imagem de seus sentimentos mais puros: é o que ele exaustivamente tanto busca reconhecer, simbolizar e expressar. Então durante este rápido lampejo, é ainda capaz de se imaginar vivendo para sempre nos seus sonhos, numa espécie de viagem sem volta (seria um tormento, mal ele sabe). Ou se tenta enxergar sua vida de um modo diferente, tornando-a um pouco mais interessante e onírica como nos quadros de Escher ou mais colorida e alegre como nos de Portinari.

Porém, os primeiros minutos do amanhecer passam-se sempre imperceptíveis e ligeiros. E antes mesmo de terminar seu café-da-manhã ele já se esqueceu de tudo que sonhara, das pinturas com que se maravilhara, das histórias que vivera. Então, no dia-a-dia, cala-se – já dissera tudo o que tinha para dizer. Novamente nas noites solitárias, revive em seus sonhos as situações mais ordinárias que ganham brilhos fantásticos e incríveis, então Rubian mostra-se outra pessoa – seu verdadeiro eu. Pena que só para ele mesmo (ou nós mesmos). E por tão pouco tempo (embora, aqui, a passagem do tempo de fato não exista, passado e futuro se confundem e o presente é um grão de areia que voa a esmo).

E foi no deserto de Abulafia que enfim encontrei Rubian vagando perdido e angustiado. Era um dia escaldante e interminável, como toda a eternidade por aqui.


*Reconheço que em outras eras, antes daquele tempo, eu também passara por um período que não me compreendia direito, não sabia nem quem, nem o quê eu era realmente. Assim como Rubian. Mas isso não durou para sempre. E essa é outra história. A minha.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

alter ego onírico

Eu sou Kuranes. Outros também têm o meu nome, inclusive aquele de Celephaïs, que vive nos vales verdejantes de Ooth-Nargai. Eu, diferentemente, habito o grande deserto de Abulafia. Aliás, eu Sou o deserto e a areia e o vento. Sou feito das suas dúvidas mais impertinentes e tão frequentes, feito da poeira acumulada de todas as suas vontades e planos não realizados em vigília. Rubian, eu sou seu alter ego onírico.