sexta-feira, 9 de maio de 2008

VOAR UMA VEZ

Da onde eu moro
O vento chega tão forte
Da onde eu moro
O vento corta tudo por onde passa

Onde eu moro é tão alto
Muito mais alto do que minha percepção alcança
Mas meus olhos vêem
Meus olhos me convencem de que o chão está próximo

O chão me convida
Eu gostaria, é um convite tentador
Quero tentar, estou encantado
Quero tentar, estou pirado
Voar uma vez, já sinto o vento

quarta-feira, 7 de maio de 2008

JUSTIFIQUE PELO PÓ

Oh, meu amor! Justifique minhas atitudes pelo pó.
Àquele que me traz bem-estar repentino e breve,
E que me leva (como água que escorre para o ralo) todas as esperanças da vida.
Justifique pelo pó, meu amor.


quinta-feira, 1 de maio de 2008

ZUMBIDOS DE BETONEIRA

Faz quantos anos, um e meio, dois já...? Não sei. Só sei que são em todas as manhãs que aquelas abelhas gigantes zumbem inimaginavelmente alto no lado de fora do meu apartamento. Estão sempre meio longe, no entanto parecem estar do meu lado. Aquele barulho ensurdecedor e ininterrupto adentra minha cabeça fazendo-a praticamente explodir.
Enquanto ainda insisto na cama tentando dormir, fico planejando. Planejo ataques aos abelhões com foguetes, mísseis, fuzis, pistolas, e até mesmo com facas. Imaginei-me com uma espada típica chinesa, entrando na mega-colméia ainda em construção deles, estraçalhando todos sem dó, fazendo-os sofrerem bastante antes de enfim matá-los. É claro que com isso não resolveria definitivamente a situação, mas a curto prazo resolveria, até que chegassem novos abelhões para continuarem a construção da mega-colméia ao lado do meu prédio.
Finalmente coloquei meus planos em prática. Tomei coragem e matei todos os abelhões. Fui implacável. O silêncio reina nas atuais manhãs. Contudo, agora é o silêncio que me atormenta. Meu ouvido fica apitando como se tivesse ouvido um barulho extremamente alto e constante por um longo tempo. E deveras ouvi! Por dois anos, ou um e meio.
Ao longo desse período instalou-se uma grande confusão no meu espírito. Sempre estive justificando-a pela aporrinhação das abelhas barulhentas. Porém o silêncio tem me sufocado tanto, que chego mesmo a zunir baixinho para mim, pra ver se assim consigo enfim dormir. Não adianta...
As coisas estão tão embaralhadas, que já não sei mais com o quê estou acostumado; se é com os ruídos ensurdecedores, ou se é com o silêncio sepulcral. Há momentos que minha própria cabeça encarrega-se de me responder, criando sons, os zunidos dos tais abelhões já falecidos. No entanto é minha própria cabeça também que se encarrega de instaurar tamanha confusão no meu espírito; ela teima em me persuadir de que eu de fato não matei uma mosca sequer, e que eu sequer tenho um apartamento, e que eu sequer existo! Traduz todos os meus sentimentos como imaginação minha.

Por hora, me questiono se realmente foi por causa das abelhas que não dormi durante esses dois anos, ou um ano e meio. Pois ainda não durmo! Qual o verdadeiro antídoto? Não sei.
Olhando para fora da minha janela, agora só vejo fumaça. Resquícios de vidas.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Otimismo não é meu forte, admito.
E às vezes - na maioria das vezes posso dizer - meu pessimismo é sem motivo.

terça-feira, 22 de abril de 2008

TRISTEZAS DE RUBIAN, O PESSIMISTA

Palavras de uma pessoa próxima mesmo: “O Rubian é uma pessoa depressiva.” O Rubian diz: “Olhe a sua volta, quantas coisas deprimentes. Você acredita ter aprendido alguma coisa, mas quando vai pô-la em prática, percebe que na verdade não aprendeu merda nenhuma.”.

O Rubian é carregado de traumas, complexos, tristeza. E quando olha para a insignificância dos seus problemas, sente-se fraco a valer. Quantas pessoas têm traumas muito maiores e vivem tão felizes, contentes, alegres. Percebe que exagera um pouco. Realmente se esquece das virtudes – das suas virtudes. Parece que nos seus pensamentos não há espaço para o positivo, somente para o deprimente.

O Rubian rola horas na cama sem conseguir dormir. Sua cabeça não pára, teimam pensamentos demasiado lúgubres, soturnos mesmo. Pensamentos que implicam uma visão angustiante de tudo ao seu redor, deveras sobre tudo, principalmente acerca do quê é, e de sua falta de capacidade política, de sua dificuldade nos relacionamentos humanos. Procura sempre explicações externas para as suas sensações. É totalmente errante quanto a isso, tudo vem do seu interior.

O Rubian procura explicações para a sua falta de sono; talvez por ter se excedido um pouco no café, talvez por conta das várias horas em frente ao computador. Da mesma forma, ele procura justificativas para a sua profunda tristeza que insiste; talvez pelo dia ter nascido tão nublado com nuvens tão escuras, talvez pelo fato de a porcaria do pão ter caído das suas mãos com a manteiga virada para o chão.

sábado, 19 de abril de 2008

OS OCUPADÍSSIMOS

Não entendo porque as pessoas sempre vivem num tremendo esforço constante para se mostrarem ocupadas, mostrarem que sempre estão fazendo alguma coisa, por mais imbecil que seja. Mas é demais para elas, demonstrarem que não fazem na verdade nada. Preferem até mesmo dizer que estão ocupadas fazendo algo idiota e inútil. Para mim, tais pessoas, são as mais deprimentes. E me dá preguiça só em olhá-las esbanjando frivolidade. E falo sério. Pois eu acabo esquecendo tudo o que elas realmente são, e vendo somente o que elas querem parecer ser. Pura enganação por parte delas. As “pessoas ocupadas” com certeza são as mais hipócritas. E o pior é que, tal falsidade de identidade, acaba pegando, ofuscando a real pessoa por detrás dessa cortina de futilidades ocupacionais. Realmente não sou eu quem julga com a maior justiça de todos os julgamentos, nem sou um psicólogo ou algo que o valha. Portanto, prefiro distância de tais pessoas, e continuar somente observando-as com um olhar um tanto irônico. E digo: sou um desocupado, nos finais de semana, por exemplo.

domingo, 13 de abril de 2008

Aquele Que Possui Alma

Quem tem alma sente.
Nunca declara quem é, pois não o sabe.
Por vezes, olha-te e mente.
Mas a mentira, para a alma, é a dúvida de quem é.

Ter alma é metamorfosear-se.
É estar como a natureza, em constante mudança.
Mentira seria se nunca se alterasse.
Olha que mentira, uma alma presa na verdade.

domingo, 6 de abril de 2008

Rotina de Precipícios

Quantas vezes comecei a andar e, quando contei cem passadas, olhei para trás e vi que o precipício ainda se encontrava aos meus calcanhares. Logo, me perguntava se era eu que havia apenas imaginado ter andado, ou se o precipício que vinha me perseguindo.
É isso que se repete em todos os meus supostos dias. Me fazendo duvidar da minha existência. Embaralhando minha concepção do que é real e do que é imaginação.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Sem Metamorfoses - Os Dias Não Passam

Meus dias têm se repetido tanto, que tenho a impressão de ser sempre o mesmo dia toda vez, desde todo amanhecer até todo anoitecer. Sempre na mesma hora, aquele ônibus chega, aquela pessoa passa por mim, o sinaleiro fica vermelho, o carro faz a curva passando por cima da poça, a velha sorri para o pombo aos seus pés. E é sempre quando o pombo voa e bate as asas a poucos centímetros dos meus olhos é que eu desperto de uma leve sonolência.
O clima sempre frio e nublado, o sol nem aparece no céu. Por vezes, tal rotina estagnante, me leva a indagar se realmente estou vivo, a viver dia após dia, ou se estou num castigo póstumo, onde vivencio diariamente os exatos mesmos fatos.
Será que de depois de dormir, acordo no mesmo dia em que fui me deitar para dormir? Será que enquanto o meu inverno de dias nublados e sem sol nunca tem fim, as outras pessoas já curtiram o Verão, a Primavera e o Outono? Será que enquanto acredito estar vivendo dias, meses, anos, nenhuma taturana sequer virou uma borboleta?

quarta-feira, 26 de março de 2008

Sem Êxitos Nas Mudanças (até quando?)

Numa necessidade intensa de alguma mudança, não quero mais me contentar no mero ato de pegar uma tesoura e retalhar meu próprio cabelo. Isso realmente não é mais uma transformação digna de impacto pra minha vida.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Enigmas, Soluções e Passeios

Da sua boca, nenhuma palavra sequer.
Um enigma.

Olharam-no nos olhos: enigma solucionado.
Enfim, através de seus olhos, viram os muitos horizontes os quais ele sempre quis mostrar a todos.
Enigma solucionado.

Basta agora descobrirem em qual dimensão ele se encontra no momento.
Talvez na Terra, talvez não.
Outro engima.

Será apenas um passeio pelas estradas intersiderais.
Um passeio intersideral engimático.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Traços e Contornos Longe de Mim

Eu procuro os seus traços
Em cada pessoa que vejo.
Vai ver os seus contornos
Já voaram para outro lado,
Longe de mim.

E fico apenas com seus traços
Que se multiplicam,
Misturam-se,
E esboçam o seu rosto
Diante das nuvens.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Acordou De Repente

Acordou de repente. Somente abriu os olhos. E o que viu - o que conseguiu distinguir naquela escuridão - foram dezenas de pessoas sentadas amontoadas a sua volta. Apenas uma lâmpada cintilava quase em vão; uma luz amarelada, meio apagada, realmente inútil para iluminar aquele lugar. Percebeu que se encontrava num porão de uma casa velha de madeira. As paredes do porão eram de um branco amarelado pelo tempo. As outras pessoas, ou olhavam para baixo, melancólicas, perdidas e sem esperanças; ou olhavam para cima, como que rogando por um socorro dos céus. Todos imundos, pelo que ele conseguia perceber.

Enfim, olhou para si próprio, também se encontrava imundo. Estava descalço. Os pés sujos de sangue, barro empastado, e cinzas. Lampejou-lhe à mente uma casa pegando fogo, e uma fuga desesperada – a sua fuga.

O que quebrava o silêncio angustiante eram os gemidos de alguém em desespero, porém, sem forças para fazer algo mais do que simplesmente gemer, ou o barulho de um esguicho, provavelmente alguém vomitando. O ar chegava-lhe às narinas e adentrava no seu corpo queimando-o por dentro, era o odor da merda e dos vômitos invadindo-o. O ar estava sólido. Alguém tossia ao seu lado, outro resmungava no outro canto, no entanto, jamais veria os rostos de quem fazia tais coisas. Sentiu-se só.

Não compreendia por que estava ali. Deu-se conta de que sua memória esvaziara-se. Não conseguia lembrar de nada anterior àquele porão, nada de antes de abrir os olhos subitamente e se deparar com pessoas que jamais vira, todas castigadas pela desesperança estampada em seus olhos. Não sabia o quê era, e nem quem era.

A fome ia apertando suas entranhas. Tentou se levantar, mas, foi traído pelo seu corpo, incapaz de se levantar um palmo do chão. Era a fome que o derrubava; era aquele lugar que o derrubava; eram aquelas pessoas que o derrubava; era aquela amnésia que o derrubava. Estava simplesmente acabado. Perturbava-se ao lembrar que não se recordava de definitivamente nada, apenas da casa pegando fogo, e da sua fuga. Mais nada vinha-lhe à mente acerca de seu passado.

Ouviu o vidro de uma janela se quebrando, não conseguia distinguir se foi ao longe ou se foi perto que se quebrou o tal vidro. Lá em cima, uma rádio ressoava uma música árabe. De repente, o som cessara. Parara ante mesmo de a música terminar. O que se fez ouvir depois, foram botas que batiam no chão do andar superior. Muitas botas. Produziam um som assustador. De fato, todos arregalaram os olhos assustados. Aguçaram os ouvidos e se encolheram.

De súbito, a porta que dava para o térreo se abriu. Surgiram então homens com uniformes e munidos de armas. Eram soldados. Gritavam palavras desconhecidas, de uma outra língua.

As pessoas no porão quase não reagiram, permaneceram paradas, estáticas pelo terror. Da mesma forma que os soldados entraram abruptamente, começaram a atirar nos esfarrapados ali presentes de repente. Um a um, pretendiam matar a todos. Pareciam economizar balas, pois, metodicamente, disparavam apenas uma bala certeira no meio da testa de cada um. De tão exaustos, ninguém esboçava alguma atitude de tentar fugir e sobreviver àquilo. Os olhares eram como os de cordeiros que já sabiam que isso iria acontecer a eles, e que não havia nada a se fazer. Resignados. Uma morte resignada.

Enfim, chegara a sua vez. E foi aí, frente a frente com uma metralhadora russa Kalashnikova, que compreendeu – lembrara- o quê era: um órfão, um refugiado, um acuado de guerra. E em breve - já tinha esta convicção - tornar-se-ia mais um fantasma de guerra com um furo no meio da testa. E suas lembranças; sua vida; sua personalidade; seus conhecimentos; sua história; logo contrastariam em vermelho com a parede amarelada detrás dele.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Quem Vomita Corações

Quem nunca amarrara seu coração, e expeliu-o vomitando? Vomita. Pega então seu coração, já amarrado e apertado devido à angústia dos seus dias repetitivos, e larga-o em algum canto qualquer do seu quarto. Esquece-se dele por dias a fio.
Quem nunca conheceu alguém que já fizera isso? Enfim, olha-se no espelho e reconhece quem vomita corações. Olha pro canto do quarto e vê o seu coração, ali largado, já fedendo, já mofando. Conclui que afinal não o esquecera. Tenta persuadir-se, enganar-se, de que já não é mais dotado de coração. Mas é!
Quem nunca se reconheceu em alguém? Sim, é dotado de coração! Ela veio como um anjo, e despejara toda a sua beleza; melancólica, mas linda. O coração dela, agora, é o dele também. Ela avisa que também vomita corações, um por dia quase. E ele acaba se reconhecendo nela, gosta disso. Num quarto repleto de corações expelidos, sobre uma cama com lençóis brancos, limpos e perfumados, se amam durante as noites geladas do inverno.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Procurando Se Encontrar

Olhava-se no espelho e não se reconhecia mais. No seu espírito, ocorriam-lhe dúvidas se era ele quem olhava para aquele sujeito do espelho, ou o sujeito do outro lado que o fitava. Era incapaz de encará-lo. Tão logo seus olhos encontravam-se, desviava-os rapidamente.
Ódio...
Mais um espelho quebrado; mais um espelho desfigurara-lhe as mãos; mais uma vez não se encontrara naquele reflexo.
Em outros dias, ele já tentara ser ele mesmo. Agora não. Vive quebrando espelhos, um após o outro. E chega a odiar o sujeito que é incapaz de encarar.