Sinto que estou sendo vigiado e perseguido a todo o momento, todas as horas do dia. Algo vem me observando, me cuidando, me analisando. Sentado à mesa do bar essa sensação me acompanha, ela nunca me abandona.
Levanto e vou para o banheiro, tentar fugir do que me espreita. O banheiro minúsculo, cabendo apenas eu e a privada, nada mais. Continuo a achar que algo me olha e me escuta. Passo com a mão nas paredes de lajotas brancas. Corro com ela até todos os cantos, a fim de encontrar algum olho, algum ouvido, emergidos da lajota. Não encontro nenhum dos dois. Fico desnorteado. Volto para as mesas.
Novamente sentado à mesa do bar, rodeado de amigos, procuro me esquecer que estou sendo vigiado. Afasto essa idéia. Interajo com as pessoas. Adentro na conversa. Gesticulo brusco. Falo alto, quase grito. Tudo isso, pra ver se consigo afastar o que continua a me espreitar. Não consigo. Levanto-me outra vez e me dirijo ao banheiro.
Mesmo lá dentro, com a porta fechada e trancada, não consigo me sentir sozinho. Começo a ficar perturbado. Com a tensão, minhas mãos suam. Perco o controle dos meus movimentos, tornam-me incompreensíveis. Tenho vontade de gritar, esmurrar a parede, e depois sumir. Não quero mais ser vigiado.
Maquinalmente passo com a mão nas paredes. Não acho nem os olhos nem os ouvidos. Vejo a privada à minha frente. Raciocínio que ainda não conferi se o que me perturba esteja ali naquela água. Sem pensar muito, somente buscando acabar com aquela aflição, mergulho com a cabeça no vaso sanitário. Esforço-me para conseguir abrir os olhos debaixo da água. É apertado. Frustro-me, não encontro nada ali também. Tiro a cabeça do fundo do vaso. Depois dessa, fico mais desnorteado ainda.
Quando volto para o bar, corro desesperado para o balcão. Inclino-me para olhar detrás dele. Meus olhos inquietos correm por tudo esbugalhados, numa tentativa de flagrar meu espreitador. Nada vejo. Esgotado, me sento na cadeira junto à mesa novamente.
Perguntam-me sobre meu cabelo molhado. E eu confuso e aflito, apenas respondo que choveu muito durante o dia. Não aguardo comentários. Mesmo se houvessem não os ouviria. Não estava nem aí para aquelas pessoas que me olhavam assustadas agora. Suas vozes chegavam-me aos ouvidos mudas, indecifráveis. O que me importava realmente era o meu observador invisível. Os olhos dele deviam estar em algum lugar! Não é possível!
Encosto com a cabeça na parede. Inútil tentar me acalmar, não consigo. Meus pés batem no chão repetidas vezes: sobe e desce, sobe e desce. Meu corpo inteiro balança com a ação. O suor impregna minha pele. A camisa cola-me ao peito com o suor.
Insisto em ir ao banheiro, lá posso ficar cara a cara com meu vigilante. Vou até lá novamente. Fecho a porta. Giro a chave. Executo as mesmas operações das outras vezes: ponho a mão na parede, passo-a deslizando sobre as lajotas brancas por todos os lados, até todos os cantos. Fatigado, eu paro. Permaneço alguns segundos imóvel, olhando para a privada à frente. Algo também me olha: é o meu observador; meu vigilante; meu espreitador. Mergulho a cabeça na água de novo. Só que desta vez, puxo a descarga também. E eu me vou: sugado; sorvido; engolido. E sumo dos olhos, dos ouvidos, e de tudo que me cercava e me espreitava silenciosamente.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Vigilante Invisível
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Sempre Distrações
Sou muito distraído, por favor, não liguem.
Ando sempre dormindo pelos cantos.
Sempre divagando bobagens sem importância.
Se eventualmente me ausento muito, é por distração.
Pura distração, sempre olhando para o nada.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
O Que Era
Foi um brilho que surgiu repentino.
Se foi da mesma forma, de repente.
Se foi de supetão.
Não senhor,
Não era amor.
Era paixão.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Momentos Num Ônibus
Vou olhando, através da janela, a paisagem que corre lá fora. Dependendo da luz externa, posso ver meu rosto refletido no vidro. Assusto-me. Chego a me indagar: “Este serei eu mesmo? Pareço horrível.”. Vejo um rosto cansado, abatido. O suor não me é perceptível pelo reflexo, mas sei que ele existe. Sinto-o em minha testa. No entanto, não me é possível nem limpa-lo, passando a mão sobre a pele impregnada. Pois minhas mãos encontram-se fixas, segurando no apoio acima da cabeça. Além disso, o aperto entre os passageiros é tão grande, que um movimento desse tipo, é totalmente impraticável. O espaço de cada um dentro do veículo é estritamente limitado, estreitando a liberdade individual. Tirar as mãos do apoio, também é um risco, sendo que o ônibus passa por ruas muito esburacadas. E num relance, o balanço abrupto provocado pode derrubar-me. Portanto, permanecer de pé requer muito esforço, não sendo permitido descuidos por parte dos passageiros.
Olho para uma menina sentada ao fundo. Eu consigo vê-la, e ela, nem imagina que está sendo observada por alguém. Mesmo de longe, posso perceber seus olhos inquietos. Com a cabeça curvada para a janela, persegue com os olhos todas as coisas que passam lá fora. Certamente está perdida, confusa e aflita. Assim como meu rosto reflete-se cansado no vidro, ela bate ininterruptamente com as pontas dos dedos no corrimão à sua frente, refletindo também seu estado de espírito.
Corro a vista por todos os passageiros presentes. Nenhum deles olha-me nos olhos. Um ou outro me lança um olhar disfarçado, mas nunca nos olhos. Todos se encontram absortos em seus próprios pensamentos. Utilizando daquele tempo ali, para tentar solucionar os problemas de suas vidas. Comigo não é diferente. Busco amenizar e esquecer do meu cansaço, apreciando a beleza da menina aflita e confusa sentada no fundo do ônibus, tão linda.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Sonho Confundindo O Real (e vice-versa)
No sonho
O real
Se confunde
Se funde
No profundo
Doutro mundo
É outra Lua
Outro Sol
Os mesmos
Olhos
A mesma
Sombra
sábado, 9 de fevereiro de 2008
Pesadelos-sonhos-delírios-lucidez para a Lua
Alguns pesadelos tornam-se realidade
E alguns sonhos se vão num copo de vodca.
Certos delírios vêm invadir meu dia
E aquela lucidez se vai num copo de conhaque.
Que necessidade mais absurda
A de querer se recolher do mundo.
Prefiro é me transportar para a Lua.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Pensamentos de Rubian (passados num banco da Rua XV e na Praça Osório)
Eu a vi passar novamente. Outra vez não me viu! Não sei, pode ser problema de vista. Sim, é possível. Bom, eu quero acreditar nisso. Mas o que me resta de lucidez me alerta, alegando que estou enganado: ela nunca usara óculos, nem lente. Infelizmente eu lembro disso. “Pra que se enganar supondo um problema de vista? Você vai chegar aonde dessa forma?” Maldita lucidez! Faz minha mente dividir-se
Vou aproveitar esse meu momento de espera, para vaguear por minhas memórias: no parque, sentado ao lado dela. Ouvindo o silêncio da vida. Conversando despreocupado. O sol já indo embora, despedindo-se de nós de uma forma linda, proporcionando-nos uma vista maravilhosa. Ela olhava para o céu avermelhado. Eu esquecia-me do céu. Seu rosto já era meu paraíso: sua boca, seus olhos, sua pele, seu corpo. Eu via apenas ela. Nada mais de pôr do sol. Meu céu vinha junto com seus beijos. Naquele gramado passamos toda a tarde. Era domingo. Ou sábado? Ou era um simples feriado? Que memória a minha! Esqueci-me.
Por quanto tempo já estou aqui? Não vejo mais pedestres. Ela passou de novo? Perdi-me
Oh não, ela tropeçou. Tenho que ajuda-la. Não agüento mais meus pés, estão doloridos demais. Minha vista já foi melhor também. Está tudo tão embaçado. “Onde está ela agora?!”No geral, minha vida sempre foi confusa. Ela ali caída - ”onde?” - e eu simplesmente apenas a observando, como um animal. Ela não me viu àquela hora. No fundo nunca a perdoei. Posso dizer que minha vista também não me deixou fazer nada: lógico que será uma desculpa, uma mentira. Aliás, ela é uma mentira. Marina é uma mentira.
domingo, 3 de fevereiro de 2008
Existencial
Você existe por um passo,
Você existe por um tropeço.
Uma existência sem explicações e sem porquês.
Uma existência tortuosa.
Você apenas existe, e isso é tudo.
Existir é explicação.
Existir é dúvida.
Você apenas existe, e isso é tudo: dúvidas, explicações e porquês.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Sujeitos + Ou's
Sujeito forte é quem? Aquele que fecha os olhos sabidamente para os riscos; ou quem caminha sempre atento a tudo, sensível a cada movimentação?
Sujeito sabido é quem? Aquele que reflete inúmeras vezes antes duma ação; ou quem se deixa guiar por seus impulsos emotivos do momento?
Sujeito atento é quem? Aquele de olhar ligeiro; ou aquele de olhar racional e analítico?
Sujeito reflexivo é quem? Aquele que escreve; ou quem o lê?
Sujeito ser humano cabe em todos os ou’s possíveis. A escolha é livre.
domingo, 27 de janeiro de 2008
Selvagem Urbano
Acredito que eu esteja por volta de uns vinte anos de idade. Nunca fiz nada de produtivo. Nunca mais sai do meu canto, e nem cultivo relacionamentos. Sou um rato tipo urbano. Um tipo, que mora numa caverna de concreto, e foge da luz do sol. Inevitavelmente fui obrigado a cultivar algumas amizades: morcegos. Em troca do meu sangue, proporcionavam-me companhia; uma companhia vazia e de desafeto. Apenas visávamos o lucro de cada um, da forma mais egoísta possível. Aprendi a língua deles.
Alguns pensamentos se afloram: se acaso eu venha a rever pessoas, conseguirei estabelecer alguma comunicação? E meus modos, ainda são de um ser humano? Não sei, nunca mais vi nenhum.
Agora, mandei tudo à merda. Estou aqui, me embriagando, servindo-me da sangria dos morcegos. Estou bebendo meu próprio sangue por tabela. Tudo o que eles consumiram, eu consumo agora. Não reconheço meu sabor, nem mesmo aprecio este momento. E muito menos sinto-me feliz. Sou um sobrevivente. Sobrevivendo e vivendo à custa do meu próprio sangue.
Às vezes fico pensando, se lá fora, as pessoas não fazem o mesmo que eu para sobreviver. Como será que anda a sociedade? Muito progresso deve ter havido durante esse tempo em que estou recluso. Sou um selvagem agora. Não me adequaria ao mundo civilizado e organizado outra vez.
Selvagem é o que sou hoje. Selvagem urbano.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Sonho
Tudo em meus sonhos não são coisas exatas e nem definidas, posso me encontrar num certo local, e logo em seguida já
Eu havia feito uma viagem, estava na praia com meus pais, num apartamento desconhecido. Necessitávamos de dinheiro para nos sustentar ali. Todos haviam abandonado suas ocupações antigas.
Encontramos uma alternativa para nossa subsistência, aparentemente conseguindo certo sucesso com essa nova empreitada: cuidávamos de crianças, tomávamos conta delas por dias a fio ou, até mesmo, meses.
Aos poucos, esses serviços vinham se tornando um negócio sério. Porém, mesmo assim, o local que usávamos era o nosso próprio apartamento – apertado e incômodo.
Via crianças chorando, babando, gritando, engatinhando, batendo os pés. Minha casa havia se tornado completamente numa creche, a qual mais se parecia com um hospício-mirim. Para aumentar mais ainda essa sensação de desconforto, meu plano de vista era da mesma altura da dos bebês, não os via por cima, mas olhos nos olhos. Sentia-me como um deles, espalhados pelo carpe.
Um pressentimento de que as coisas estavam saindo do controle invadia-me ao olhar para aquela confusão de crianças. Um dia, minha mãe pediu-me para cuidar especialmente de um bebê, pois estava extremamente ocupada em outro cômodo da casa (agora o apartamento não me parecia tão pequeno, e sim grande e sombrio, com cômodos ainda desconhecidos para mim). Eu acatei sua ordem, e fiquei vigiando o bebê. Então, por uma distração minha, a criança – muito ativa por sinal – desapareceu do meu campo de vista. No entanto, eu sabia que ela tinha ido para um corredor escuro, o qual me era totalmente desconhecido, mesmo sendo dentro da minha própria casa.
Eu corri atrás dela. Entrei no corredor escuro, e fui acabar num quarto que tinha uma janela que ia até o chão. Estávamos no térreo. Eu vi a criança passar pela janela, então fui desesperadamente atrás dela. Não podia estragar com o nosso sustento, seria suicídio. Para aumentar ainda mais minha aflição, fui parar numa calçada cheia de pessoas, via só suas pernas, esse era meu campo de visão. E nada de encontrar o bebê. Procurava em vão.
De repente, senti que todos me olhavam, num tom de reprovação e censura. Não havia percebido, mas eu estava nu. Senti-me profundamente envergonhado, e me esqueci completamente da minha missão, a qual me tinha feito sair para a calçada daquele modo.
Instante depois, parecia-me que haviam se passado anos, o bebê ainda desaparecido – na verdade, sentia que ele era o carrasco; o responsável pela desgraça a qual eu estava passando. Eu ainda permanecia parcialmente despido. Apenas uns trapos cobriam-me o corpo. Estava imundo e sem esperanças de voltar a ver minha família.
Lampejos de lugares invadiram minha mente: supermercados, hotéis, campos de futebol de cimento, ruas asfaltadas vazias. Por fim, acabei num terraço de um prédio.
Via de cima do prédio as outras pessoas com suas vidas: moleques jogavam bola lá embaixo num campinho, pássaros voavam livremente, velhinhos sorridentes carregavam sacolas do supermercado, guardas com uniformes azuis observavam os transeuntes. Todos pareciam zombar da minha desgraça repentina e ao mesmo tempo duradoura. Tinha a sensação de que tive tudo e perdi num breve instante.
domingo, 20 de janeiro de 2008
Esquizofrenia De Um Qualquer
Forjando uma realidade
Tentando escapar da realidade
Inventando qualquer verdade.
Tido como esquecido pelo mundo
Terá ele ido muito fundo?
Para seus sentidos acharem natural
Saírem sempre do real.
sábado, 19 de janeiro de 2008
Uma Carta
“... sou um cara egoísta, e que não tem nenhum interesse pelas outras pessoas.”
Essas foram as últimas palavras de uma carta de amor.
Porém, não as únicas.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Depois De Um Café Sobram Os Porquês
Ele tomou um café e saiu. Depois, foi andar sobre os trilhos sem olhar pra frente, esperando o encontro final do trem.
Ela nunca notara aquele seu olhar vazio, aquele seu olhar vazio.
- Para o quê está olhando?
- Nada. Foi apenas um sonho, e acabei acordando.
Sonhava e acordava todas as noites.
Durante o dia, era aquele olhar vazio, aquele olhar vazio.
Ela definitivamente precisa encontrar forças.
Ela encontrou. Ela é forte agora.
Forte, da forma que ele jamais fora em vida.
Mas mesmo assim, há porquês que nunca se esclarecerão.
E causarão aquele olhar vazio, aquele olhar vazio.