Tomei litros de álcool puro
A fim de vomitar definitivamente tudo
De fato foi-se tudo ao chão
Meus rins, tripas, e por fim meu coração
Um sujeito a carregar suas entranhas numa trouxa. O coração ainda por bater, intrépido. As lembranças ainda por remoer, aflitivas.
Vagando; saboreando o ar entrar-lhe pelas narinas, e percorrer seu corpo vazio.
Vagando; a cada tropeço de cansaço, deixando-se caído para escrever versos.
Não, minha querida.
Não me traga esta toalha
Vermelho-sangue.
Quero perceber minhas feridas.
Vamos, traga-me aquela
Branca-pura.
Perambulando num deserto. Sem cruzar com um ser sequer. Vento não havia. Ainda assim, insiste
Da memória afloram-se remorsos. Houve um porquê em se estripar? O ciúme e a desconfiança, velhas conhecidas.
Naquela noite escura,
Ouve-se um sussurro.
Era o seu, eu sei.
Na cama, ao invés de dormir,
Você sonhava e suspirava
Por um outro alguém.
O andar tornou-se mais cambaleante, ao passo que os pensamentos tornavam-se mais pesados e remorsos. Idéia de adultério já não era mais tão certa.
Perdido, completamente perdido; os pés trilhavam caminhos sem destino, ao nada. O Sol, vermelho, a perseguir o andante. Aos poucos ele rogava piedade ao Sol, até se este lhe presenteasse com a morte. A morte viria doce.
Num desses lances...
Eu a vi!
Tão Santa
Tão Bela
Anjo na Terra
Encontra uma árvore imensa, altíssima. Ao pé dela, um pequeno lago límpido. Lá no alto da copa, nos últimos galhos, em meio a lindas flores coloridas de lilás, está ela, seu amor. Uma santa; ou a algoz de toda a sua angústia. Àquela vista, a santa parece o fixar ao chão. Não obstante, o sujeito ainda mergulha no lago. Suas entranhas a tomar sol na beira.
Agora, refrescado, ele fita-lhe lá no alto. É capaz de vê-la iluminada. Arrependido, totalmente arrependido, pede-lhe perdão. Suplica por graça. Estende a sua mão. Curva sua cabeça. Diz não havia razão da desconfiança.
A santa parece não estar presente, o que é comum quanto aos santos; o olhar distante, o corpo estático como pedra. Um vestido branco e púrpuro a cobre placidamente.
O andante reconhece-se pecador. Implacável. Ajoelha-se diante da árvore; prostra-se por inteiro à santa – sua amada e odiada conjugue.
Não há mais solução.
Junta seu intestino jogado ali no gramado do oásis e sobe na árvore. Envolve as tripas no seu pescoço e ata um nó. Amarra-o a um galho rígido... E salta. Por dois segundos voa.
Não vê? Ele buscava os céus.
A digníssima santa, por quem tanto alimentara desconfiança misturada com ódio, continua altiva a tocar o céu.
Mais abaixo, suspendido por um rígido galho, uma espécie de pêndulo preguiçoso. Preguiçoso, pois, ali, vento não havia.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
SANTA ESPOSA ALGOZ
06:00
sexta-feira, 13 de junho de 2008
A EXISTÊNCIA DE RUBIAN
Rubian perdido em seu labirinto sai a procura de ar.
Duas horas a mergulhar, nadando na calçada de pedras brancas da Praça Rui Barbosa; ele se perde, sem ar.
Duas horas a nadar, mergulhando no verde escuro das árvores da Praça Osório; ele se perde, sem ar.
O relógio da praça está parado: nove horas.
Nem um minuto a mais: é hora de partir.
Quem sabe ele volte.
Contudo, os ponteiros não se movem, sempre é hora de partir.
Sem respirar Rubian existe, seja onde for.
sábado, 7 de junho de 2008
O SENHOR DA BANCA E SUA VIDA SECRETA
“Vai lá, manda brasa!”, são as palavras roucas que eu ouço após catar umas moedas escondidas no bolso e pedir um cigarro. Quem as diz é o senhor da banquinha. Um sujeito muito peculiar de olhos azuis pálidos, esbugalhados por detrás dos óculos de lentes espessas. Os cabelos, ¾ grisalhos e 2/3 já ausentes, moldam uma careca digna de louco. Pois o que lhe resta de cabelo, está sempre esvoaçado, parecendo que os fios têm vida própria e lutam para se descolarem do couro cabeludo. Aliás, todos os trejeitos do senhor da banquinha desenham um louco por detrás do balcão, repleto de cigarros para os jovens e balas para a piazada.
Desconfio que o velho da banca não ocupe seus dias somente com os “Vai lá, manda brasa!”, creio que seja um escritor. Desses que mantém sigilo extremo e até usam pseudônimo para assinarem suas obras. Imagino-o fechando a banca depois de um longo dia de trabalho acompanhado dos cigarros, balas e clientes. E se dirigindo a algum café da Rua XV.
Sentado, com o olhar atento; ouvidos aguçados; o bloco e a caneta na mão; a xícara de café meio cheia pousada sobre a mesa de canto; anota todas as histórias que consegue ouvir. Transcrevendo-as a fim de não perder nenhuma sensibilidade sequer; nenhuma emoção sequer. O senhor da banca utiliza-se do anonimato para fazer-se quase invisível, apenas um móvel ali parado, um abajur talvez.
Qualquer dia desses, após o tradicional “Vai lá, manda brasa!”, irei perguntar para o senhor da banquinha como anda sua vida literária, se está numa fase criativa e tudo mais, e, se de fato for escritor, pedirei um descontinho nalguns livros dele. Mas, se ele não for um, quem se passará por louco na história toda, serei eu.
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Essa foi pro Dalton Trevisan.
Dalton Trevisan viaja por Curitiba.
terça-feira, 3 de junho de 2008
PUTA QUE TE PARIU
E acabo dizendo puta que pariu ao dobro quando eu olho a minha volta e nada me atrai. Pessimismo. Acredito que ninguém queira conviver com tal pessoa dona dessa visão. Quem sabe preciso mesmo de um oftalmologista. Ou de uma puta. Não daquela que te pariu, alguma outra.
É verdade. Uma vez me disseram: “Não planeje tanto assim, faça mais.” É verdade, meu deus, quem foi que disse isso me pergunto agora. Talvez a puta. Aquela que você conhece bem. Ah, vai à merda você, sua mãe, e todas as teorias medíocres e estereotipadas dela. Eu diria (a ela, quem sabe): “Muito fácil falar, quero ver é fazer”.
Quanto ao meu futuro? Realmente estou quase a dizer: “Foda-se”.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
TINTA PRETA, O FUTURO
Futuro escuro.
É algo confuso
e obscuro hoje.
Do amanhã vêm morcegos.
O papel em branco
preenchido de preto.
Isso é futuro, futuro escuro.
Hoje, nenhum mais.
Acordei atordoado.
Ainda de olhos fechados.
domingo, 25 de maio de 2008
E NO FIM AMANTE
A luz vermelha pisca.
Um instante.
A luz vermelha torna a piscar.
Vejo somente o seu brilho refletido em algo escuro à minha frente. É na penumbra que a luz se faz enxergar.
Torna a piscar. Brilha, me atormenta.
Penumbra.
Eu deitado numa cama sem-vergonha. Sinto meus ossos contra o colchão vagabundo e murcho.
A luz pisca.
Alguma boca assobia uma canção.
É uma canção de ninar.
A luz vermelha. Meus ossos. Assobio. Escuridão.
Penso
Devaneio de olhos abertos: eu e ela num jardim, o sol refletindo em nossos olhos.
O devaneio se esvaece.
É a luz vermelha outra vez.
Acordou-me. Desviou-me a atenção. E fez-me aflorar outras idéias. Idéias malévolas.
Idéias impertinentes:
Da onde está vindo esse maldito brilho vermelho?! Vermelho que me lembra tanto sangue. Sangue humano, animal... Que seja! Mas sangue.
A luz volta a piscar.
Sinto meus ossos cada vez mais pesados.
O assobiador não pára, a canção parece ser longa ou ele já a repetiu várias vezes e eu nem percebi.
Aperto as mãos dela junto ao meu peito. Que mãos delicadas. Que cabelos cheirosos. Que corpo esbelto. Contemplo-a mesmo no escuro. Acaricio-a.
Mantenho meus olhos abertos.
Por instantes somente a escuridão. Mas logo vem a luz.
A luz vermelha continua a me desafiar.
O assobio cessou. A luz ainda não.
O brilho volta, refletido na minha frente. Vem e me acusa. Despeja aos meus olhos este vermelho-sangue. Um borrão vermelho estampado do tamanho de uma cabeça.
A mão dela junto ao meu peito.
A luz vermelha e o sangue que foi derramado.
Há pouco, um respirar foi interrompido.
Eu e ela na cama deitados lado a lado. Afundo meus dedos nos seus cabelos lisos. Percorro com os dedos, do começo ao fim dos fios. Aperto a sua mão, os dedos são finos e frágeis, trago-a junto ao meu peito e a levo até minha boca beijando-lhe. A luz vermelha outra vez. Aquele borrão-sangue do tamanho de uma cabeça.
Porém as mãos dela estão frias demais.
Sinto calafrios.
Sinto o silêncio.
A penumbra.
A luz vermelha.
O sangue.
Sinto-me, pela primeira vez, assassino.
- Durma em paz, meu amor.
Sinto-me, pela primeira vez, amante.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
DO PSEUDOBEM-ESTAR AOS REMÉDIOS
Tenho um apartamento branco no centro da cidade.
Minha namorada é linda.
Mas às vezes sou um pouco doentio.
Às vezes sinto-me corroído por dentro.
Trouxeram-me remédios da farmácia da rua ao lado.
Minha namorada fugiu.
Mas às vezes eu a vejo em mim.
Às vezes sinto-me preso a ela ainda.
(o tempo passa e voa)
Troco olhares doentios comigo mesmo.
E vejo as coisas assim:
Dentro de mim, é somente ela.
Fora de mim, são só os remédios.
(o tempo voa e leva pra longe)
Tenho agora uma sala só minha afastada da cidade e de tudo.
Minha namorada nem me viu.
Às vezes me carregam pra fora dessa sala.
E meus olhos vêem apenas jardins desbotados.
(é tempo de remédios)
Uma janela sem vidros.
Uma porta de ferro.
E remédios.
terça-feira, 20 de maio de 2008
DURMA, É MELHOR
Não.
Durma, é melhor.
Não acha? Pense em algo bom, sonhe com bosques e jardins.
Não consegue? Claro que consegue. Procure em si resquícios da sua infância.
Nunca teve? Procure então fechar os olhos e esquecer.
Esqueça tudo, apenas vislumbre o escuro ao cerrar os olhos.
Onde eu estou? Estou há tempos ao seu lado, nunca me percebeu?
Eu sei disso. Sempre sussurrei ao seu ouvido, nunca me deu atenção.
E é agora, quando já está tudo consumido, tudo dado por acabado, que enfim me ouviste.
Pois não pare agora então.
Feche os olhos, vamos dormir.
Você ainda pode viver.
Você escolhe: morrer ou viver.
Não meu bem, isso não foi uma pergunta.
sábado, 17 de maio de 2008
TIQUETAQUEAR E CHATEAÇÕES
Eu odeio o tique-taque incessante.
É impossível dormir com ele.
Que não me deixam sair de casa.
E nem sair de casa, e nem me chatear.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
VOAR UMA VEZ
Da onde eu moro
O vento chega tão forte
Da onde eu moro
O vento corta tudo por onde passa
Muito mais alto do que minha percepção alcança
Mas meus olhos vêem
Meus olhos me convencem de que o chão está próximo
Eu gostaria, é um convite tentador
Quero tentar, estou encantado
Quero tentar, estou pirado
Voar uma vez, já sinto o vento
quarta-feira, 7 de maio de 2008
JUSTIFIQUE PELO PÓ
Oh, meu amor! Justifique minhas atitudes pelo pó.
Àquele que me traz bem-estar repentino e breve,
E que me leva (como água que escorre para o ralo) todas as esperanças da vida.
Justifique pelo pó, meu amor.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
ZUMBIDOS DE BETONEIRA
Faz quantos anos, um e meio, dois já...? Não sei. Só sei que são em todas as manhãs que aquelas abelhas gigantes zumbem inimaginavelmente alto no lado de fora do meu apartamento. Estão sempre meio longe, no entanto parecem estar do meu lado. Aquele barulho ensurdecedor e ininterrupto adentra minha cabeça fazendo-a praticamente explodir.
Enquanto ainda insisto na cama tentando dormir, fico planejando. Planejo ataques aos abelhões com foguetes, mísseis, fuzis, pistolas, e até mesmo com facas. Imaginei-me com uma espada típica chinesa, entrando na mega-colméia ainda em construção deles, estraçalhando todos sem dó, fazendo-os sofrerem bastante antes de enfim matá-los. É claro que com isso não resolveria definitivamente a situação, mas a curto prazo resolveria, até que chegassem novos abelhões para continuarem a construção da mega-colméia ao lado do meu prédio.
Finalmente coloquei meus planos
Ao longo desse período instalou-se uma grande confusão no meu espírito. Sempre estive justificando-a pela aporrinhação das abelhas barulhentas. Porém o silêncio tem me sufocado tanto, que chego mesmo a zunir baixinho para mim, pra ver se assim consigo enfim dormir. Não adianta...
As coisas estão tão embaralhadas, que já não sei mais com o quê estou acostumado; se é com os ruídos ensurdecedores, ou se é com o silêncio sepulcral. Há momentos que minha própria cabeça encarrega-se de me responder, criando sons, os zunidos dos tais abelhões já falecidos. No entanto é minha própria cabeça também que se encarrega de instaurar tamanha confusão no meu espírito; ela teima em me persuadir de que eu de fato não matei uma mosca sequer, e que eu sequer tenho um apartamento, e que eu sequer existo! Traduz todos os meus sentimentos como imaginação minha.
Por hora, me questiono se realmente foi por causa das abelhas que não dormi durante esses dois anos, ou um ano e meio. Pois ainda não durmo! Qual o verdadeiro antídoto? Não sei.
Olhando para fora da minha janela, agora só vejo fumaça. Resquícios de vidas.