terça-feira, 4 de novembro de 2008
HAVER
paralelo ao sim há o não
paralelo ao inferno há o sim
paralelo ao paraíso há o não
sábado, 1 de novembro de 2008
ANTEVER
Quanta sujeira, quanta veleidade, o mundo não é capaz de aceitar. Preferem emendar com palavras flácidas, sempre a corrigirem. Apagam rabiscos mal feitos com suas borrachas. Lêem jornais – manchetes invocam o apocalipse. Apontam com seus dedos de espada. Vomitam catástrofes iminentes.
Recolheram-se os pecadores, os amantes, os irmãos.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
DA RUA, DO LIXO
À noite, litros.
De dia, lixo.
À noite, suor impregnado,
Colhido.
Cama de pedra.
Se há casa, papelão.
A pedra, do chão.
Se há casa, lixo aos quilos,
Colhido.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
ENCARNAR EM OUTRO
Escrevo para encarnar em seres simples. Penetrar em seu espírito. Vagar por seus universos, quantas estrelas me atraem. Mas busco residir em seus mistérios. Na escuridão sempre evitada.
Com coração alheio, escrevo o que os olhos encarnados vêem e o que as veias sentem. Saem escritos rabiscados. Textos borrados, fora de foco.
Quero lugar num cômodo sombrio da sua mente. Naquele seu quarto secreto. É sombrio e você sempre o evita. Eu não. Eu o faço de minha moradia.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
PASSADO NU, VERDADE NU
Assopro os antepassados, eles vão para longe, voando.
Mais uma vez este disco. Este embalo como uma passagem aos dias com gosto de uva e cheiro de flor. Um cartão de visitas também, convidando-me a me entregar. Suplicando-me para viajar e flutuar.
Vou dormir nu hoje, em lembranças.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
DOPADO
Talvez seja melhor acordar
dar de cara nos muros
pisar nos cacos
e cheirar a carniça
sábado, 9 de agosto de 2008
PASSAGEM
Às palavras é que escrevo. Às palavras é que peço desculpas. Quanto tempo elas me esperam ali, olhando para mim, esperando alguma ação minha. Todas embaralhadas, pedindo, implorando para serem postas em linhas retas, ou nem tão retas assim.
Estão ali, como estão lá naquelas montanhas longínquas do meu horizonte, e essas palavras, são apenas as quais meus olhos humanos conseguem ver. Olhos humanos: tão limitados, tão defeituosos, tão rebeldes, que nos mostram apenas o olhar viciado do dia-a-dia. Apresentam-nos uma vida encubada. Aquilo que não existe a olho nu é jogado para detrás das nuvens brancas que, quanto mais tempo passa, mais ficam volumosas, mais intransponíveis ainda.
Volto às palavras jogadas ali no canto. Nas minhas linhas tortas tento uma passagem para detrás das nuvens. Como pregos, usarei as palavras jogadas ali no canto para perfurar estes meus olhos viciados e nebulosos. E, mesmo cego, atravessar as nuvens, pois eu ainda confio nas palavras, mesmo elas estando tão embaralhadas.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
IF. SUMMER 68. FAT OLD SUN.
E a canção corria.
O seu pescoço, delicioso.
Aquelas marcas.
Aqueles beijos.
Eu passeava, beijava.
Naquelas curvas.
Aquela pele.
Você então vem flutuando.
E eu viajo
Flutuando
segunda-feira, 7 de julho de 2008
ABISMOS SOLITÁRIOS
Sou casada. E há noites em que ele, meu marido, sai. Sem nenhum aviso, um mistério aonde vai. Eu finjo não acordar quando ele se levanta da cama de madrugada. Veste-se; vai ao banheiro; acende a luz da cozinha – posso até ouvir o clic do interruptor; apaga a luz; abre a porta e vai embora. Tudo furtivamente.
E fico eu na cama a imaginar. Imaginar aonde ele vai e o que vai fazer. Dentre outras coisas, imagino-me também o seguindo numa dessas madrugadas. Feita uma sombra. Aliás, sinto-me muitas vezes como uma sombra da vida dele. Eu sendo o seu passado, somente o passado. O presente, esse é recheado de passeios furtivos e solitários pela madrugada.
E fico eu na cama escutando a pouca movimentação da minha rua: três horas o caminhão de lixo passa. Em seguida, quarenta minutos depois, é o guardinha da rua quem passa – píííííííí pí – com seu apito. Emite um silvo longuíssimo, depois um breve. E aos poucos o som vai diminuindo, até ir-se embora. Vai-se embora assim como meu marido. O som do apito, ficando aos poucos moribundo, indo para longe vigiar outras ruas, me deixa tão mal; o sentimento de solidão me invade. Onde estará Roberto? Por quais calçadas anda?
O relógio de ponteiros a trabalhar ao lado da cama. Pousado numa mesinha em companhia do abajur, sonolento. O tempo não passa; ele não volta. Onde estará?
Quero espantar algo; quero encontrar algo; quero cantarolar. E, baixinho, sussurro como um canto, acompanhando o tic-tac do relógio: um-dois, um-dois.
Adoro andar. Principalmente na madrugada. Pois assim posso perambular tranqüilo pelas entranhas vazias – sem carros e pessoas indo e vindo – da cidade. Contemplo apenas seu esqueleto erguido: os prédios. Caminho pelo centro; chateio-me com as vitrines em demasia. É demais, um exagero.
O pior de tudo são os manequins em pé por detrás das vitrines. Todos eles a me observar. Não têm olhos, porém, certamente nem precisam, suas cabeças já vêem por si só. Vigiam-me enquanto ando. Como são horríveis! Detestáveis! Vou caminhando, vou caminhando; e eles parecem contar meus passos: um-dois, um-dois.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
SANTA ESPOSA ALGOZ
Tomei litros de álcool puro
A fim de vomitar definitivamente tudo
De fato foi-se tudo ao chão
Meus rins, tripas, e por fim meu coração
Um sujeito a carregar suas entranhas numa trouxa. O coração ainda por bater, intrépido. As lembranças ainda por remoer, aflitivas.
Vagando; saboreando o ar entrar-lhe pelas narinas, e percorrer seu corpo vazio.
Vagando; a cada tropeço de cansaço, deixando-se caído para escrever versos.
Não, minha querida.
Não me traga esta toalha
Vermelho-sangue.
Quero perceber minhas feridas.
Vamos, traga-me aquela
Branca-pura.
Perambulando num deserto. Sem cruzar com um ser sequer. Vento não havia. Ainda assim, insiste
Da memória afloram-se remorsos. Houve um porquê em se estripar? O ciúme e a desconfiança, velhas conhecidas.
Naquela noite escura,
Ouve-se um sussurro.
Era o seu, eu sei.
Na cama, ao invés de dormir,
Você sonhava e suspirava
Por um outro alguém.
O andar tornou-se mais cambaleante, ao passo que os pensamentos tornavam-se mais pesados e remorsos. Idéia de adultério já não era mais tão certa.
Perdido, completamente perdido; os pés trilhavam caminhos sem destino, ao nada. O Sol, vermelho, a perseguir o andante. Aos poucos ele rogava piedade ao Sol, até se este lhe presenteasse com a morte. A morte viria doce.
Num desses lances...
Eu a vi!
Tão Santa
Tão Bela
Anjo na Terra
Encontra uma árvore imensa, altíssima. Ao pé dela, um pequeno lago límpido. Lá no alto da copa, nos últimos galhos, em meio a lindas flores coloridas de lilás, está ela, seu amor. Uma santa; ou a algoz de toda a sua angústia. Àquela vista, a santa parece o fixar ao chão. Não obstante, o sujeito ainda mergulha no lago. Suas entranhas a tomar sol na beira.
Agora, refrescado, ele fita-lhe lá no alto. É capaz de vê-la iluminada. Arrependido, totalmente arrependido, pede-lhe perdão. Suplica por graça. Estende a sua mão. Curva sua cabeça. Diz não havia razão da desconfiança.
A santa parece não estar presente, o que é comum quanto aos santos; o olhar distante, o corpo estático como pedra. Um vestido branco e púrpuro a cobre placidamente.
O andante reconhece-se pecador. Implacável. Ajoelha-se diante da árvore; prostra-se por inteiro à santa – sua amada e odiada conjugue.
Não há mais solução.
Junta seu intestino jogado ali no gramado do oásis e sobe na árvore. Envolve as tripas no seu pescoço e ata um nó. Amarra-o a um galho rígido... E salta. Por dois segundos voa.
Não vê? Ele buscava os céus.
A digníssima santa, por quem tanto alimentara desconfiança misturada com ódio, continua altiva a tocar o céu.
Mais abaixo, suspendido por um rígido galho, uma espécie de pêndulo preguiçoso. Preguiçoso, pois, ali, vento não havia.
06:00
sexta-feira, 13 de junho de 2008
A EXISTÊNCIA DE RUBIAN
Rubian perdido em seu labirinto sai a procura de ar.
Duas horas a mergulhar, nadando na calçada de pedras brancas da Praça Rui Barbosa; ele se perde, sem ar.
Duas horas a nadar, mergulhando no verde escuro das árvores da Praça Osório; ele se perde, sem ar.
O relógio da praça está parado: nove horas.
Nem um minuto a mais: é hora de partir.
Quem sabe ele volte.
Contudo, os ponteiros não se movem, sempre é hora de partir.
Sem respirar Rubian existe, seja onde for.
sábado, 7 de junho de 2008
O SENHOR DA BANCA E SUA VIDA SECRETA
“Vai lá, manda brasa!”, são as palavras roucas que eu ouço após catar umas moedas escondidas no bolso e pedir um cigarro. Quem as diz é o senhor da banquinha. Um sujeito muito peculiar de olhos azuis pálidos, esbugalhados por detrás dos óculos de lentes espessas. Os cabelos, ¾ grisalhos e 2/3 já ausentes, moldam uma careca digna de louco. Pois o que lhe resta de cabelo, está sempre esvoaçado, parecendo que os fios têm vida própria e lutam para se descolarem do couro cabeludo. Aliás, todos os trejeitos do senhor da banquinha desenham um louco por detrás do balcão, repleto de cigarros para os jovens e balas para a piazada.
Desconfio que o velho da banca não ocupe seus dias somente com os “Vai lá, manda brasa!”, creio que seja um escritor. Desses que mantém sigilo extremo e até usam pseudônimo para assinarem suas obras. Imagino-o fechando a banca depois de um longo dia de trabalho acompanhado dos cigarros, balas e clientes. E se dirigindo a algum café da Rua XV.
Sentado, com o olhar atento; ouvidos aguçados; o bloco e a caneta na mão; a xícara de café meio cheia pousada sobre a mesa de canto; anota todas as histórias que consegue ouvir. Transcrevendo-as a fim de não perder nenhuma sensibilidade sequer; nenhuma emoção sequer. O senhor da banca utiliza-se do anonimato para fazer-se quase invisível, apenas um móvel ali parado, um abajur talvez.
Qualquer dia desses, após o tradicional “Vai lá, manda brasa!”, irei perguntar para o senhor da banquinha como anda sua vida literária, se está numa fase criativa e tudo mais, e, se de fato for escritor, pedirei um descontinho nalguns livros dele. Mas, se ele não for um, quem se passará por louco na história toda, serei eu.
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Essa foi pro Dalton Trevisan.
Dalton Trevisan viaja por Curitiba.
terça-feira, 3 de junho de 2008
PUTA QUE TE PARIU
E acabo dizendo puta que pariu ao dobro quando eu olho a minha volta e nada me atrai. Pessimismo. Acredito que ninguém queira conviver com tal pessoa dona dessa visão. Quem sabe preciso mesmo de um oftalmologista. Ou de uma puta. Não daquela que te pariu, alguma outra.
É verdade. Uma vez me disseram: “Não planeje tanto assim, faça mais.” É verdade, meu deus, quem foi que disse isso me pergunto agora. Talvez a puta. Aquela que você conhece bem. Ah, vai à merda você, sua mãe, e todas as teorias medíocres e estereotipadas dela. Eu diria (a ela, quem sabe): “Muito fácil falar, quero ver é fazer”.
Quanto ao meu futuro? Realmente estou quase a dizer: “Foda-se”.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
TINTA PRETA, O FUTURO
Futuro escuro.
É algo confuso
e obscuro hoje.
Do amanhã vêm morcegos.
O papel em branco
preenchido de preto.
Isso é futuro, futuro escuro.
Hoje, nenhum mais.
Acordei atordoado.
Ainda de olhos fechados.