sábado, 9 de agosto de 2008

PASSAGEM

Às palavras é que escrevo. Às palavras é que peço desculpas. Quanto tempo elas me esperam ali, olhando para mim, esperando alguma ação minha. Todas embaralhadas, pedindo, implorando para serem postas em linhas retas, ou nem tão retas assim.
Estão ali, como estão lá naquelas montanhas longínquas do meu horizonte, e essas palavras, são apenas as quais meus olhos humanos conseguem ver. Olhos humanos: tão limitados, tão defeituosos, tão rebeldes, que nos mostram apenas o olhar viciado do dia-a-dia. Apresentam-nos uma vida encubada. Aquilo que não existe a olho nu é jogado para detrás das nuvens brancas que, quanto mais tempo passa, mais ficam volumosas, mais intransponíveis ainda.
Volto às palavras jogadas ali no canto. Nas minhas linhas tortas tento uma passagem para detrás das nuvens. Como pregos, usarei as palavras jogadas ali no canto para perfurar estes meus olhos viciados e nebulosos. E, mesmo cego, atravessar as nuvens, pois eu ainda confio nas palavras, mesmo elas estando tão embaralhadas.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

IF. SUMMER 68. FAT OLD SUN.

E a canção corria.
O seu pescoço, delicioso.
Aquelas marcas.
Aqueles beijos.

Com seu balanço
Eu passeava, beijava.
Naquelas curvas.
Aquela pele.

E este disco agora me lembra você.
Você então vem flutuando.
E eu viajo
Flutuando

segunda-feira, 7 de julho de 2008

ABISMOS SOLITÁRIOS

Sou casada. E há noites em que ele, meu marido, sai. Sem nenhum aviso, um mistério aonde vai. Eu finjo não acordar quando ele se levanta da cama de madrugada. Veste-se; vai ao banheiro; acende a luz da cozinha – posso até ouvir o clic do interruptor; apaga a luz; abre a porta e vai embora. Tudo furtivamente.
E fico eu na cama a imaginar. Imaginar aonde ele vai e o que vai fazer. Dentre outras coisas, imagino-me também o seguindo numa dessas madrugadas. Feita uma sombra. Aliás, sinto-me muitas vezes como uma sombra da vida dele. Eu sendo o seu passado, somente o passado. O presente, esse é recheado de passeios furtivos e solitários pela madrugada.
E fico eu na cama escutando a pouca movimentação da minha rua: três horas o caminhão de lixo passa. Em seguida, quarenta minutos depois, é o guardinha da rua quem passa – píííííííí pí – com seu apito. Emite um silvo longuíssimo, depois um breve. E aos poucos o som vai diminuindo, até ir-se embora. Vai-se embora assim como meu marido. O som do apito, ficando aos poucos moribundo, indo para longe vigiar outras ruas, me deixa tão mal; o sentimento de solidão me invade. Onde estará Roberto? Por quais calçadas anda?
O relógio de ponteiros a trabalhar ao lado da cama. Pousado numa mesinha em companhia do abajur, sonolento. O tempo não passa; ele não volta. Onde estará?
Quero espantar algo; quero encontrar algo; quero cantarolar. E, baixinho, sussurro como um canto, acompanhando o tic-tac do relógio: um-dois, um-dois.


Adoro andar. Principalmente na madrugada. Pois assim posso perambular tranqüilo pelas entranhas vazias – sem carros e pessoas indo e vindo – da cidade. Contemplo apenas seu esqueleto erguido: os prédios. Caminho pelo centro; chateio-me com as vitrines em demasia. É demais, um exagero.
O pior de tudo são os manequins em pé por detrás das vitrines. Todos eles a me observar. Não têm olhos, porém, certamente nem precisam, suas cabeças já vêem por si só. Vigiam-me enquanto ando. Como são horríveis! Detestáveis! Vou caminhando, vou caminhando; e eles parecem contar meus passos: um-dois, um-dois.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

SANTA ESPOSA ALGOZ

Tomei litros de álcool puro
A fim de vomitar definitivamente tudo
De fato foi-se tudo ao chão
Meus rins, tripas, e por fim meu coração



Um sujeito a carregar suas entranhas numa trouxa. O coração ainda por bater, intrépido. As lembranças ainda por remoer, aflitivas.
Vagando; saboreando o ar entrar-lhe pelas narinas, e percorrer seu corpo vazio.
Vagando; a cada tropeço de cansaço, deixando-se caído para escrever versos.


Não, minha querida.
Não me traga esta toalha
Vermelho-sangue.

Quero perceber minhas feridas.
Vamos, traga-me aquela
Branca-pura.


Perambulando num deserto. Sem cruzar com um ser sequer. Vento não havia. Ainda assim, insiste em respirar. Saboreia o ar, pesaroso ar.
Da memória afloram-se remorsos. Houve um porquê em se estripar? O ciúme e a desconfiança, velhas conhecidas.


Naquela noite escura,
Ouve-se um sussurro.
Era o seu, eu sei.

Na cama, ao invés de dormir,
Você sonhava e suspirava
Por um outro alguém.



O andar tornou-se mais cambaleante, ao passo que os pensamentos tornavam-se mais pesados e remorsos. Idéia de adultério já não era mais tão certa.
Perdido, completamente perdido; os pés trilhavam caminhos sem destino, ao nada. O Sol, vermelho, a perseguir o andante. Aos poucos ele rogava piedade ao Sol, até se este lhe presenteasse com a morte. A morte viria doce.
Num desses lances...


Eu a vi!
Tão Santa
Tão Bela
Anjo na Terra


Encontra uma árvore imensa, altíssima. Ao pé dela, um pequeno lago límpido. Lá no alto da copa, nos últimos galhos, em meio a lindas flores coloridas de lilás, está ela, seu amor. Uma santa; ou a algoz de toda a sua angústia. Àquela vista, a santa parece o fixar ao chão. Não obstante, o sujeito ainda mergulha no lago. Suas entranhas a tomar sol na beira.
Agora, refrescado, ele fita-lhe lá no alto. É capaz de vê-la iluminada. Arrependido, totalmente arrependido, pede-lhe perdão. Suplica por graça. Estende a sua mão. Curva sua cabeça. Diz não havia razão da desconfiança.
A santa parece não estar presente, o que é comum quanto aos santos; o olhar distante, o corpo estático como pedra. Um vestido branco e púrpuro a cobre placidamente.
O andante reconhece-se pecador. Implacável. Ajoelha-se diante da árvore; prostra-se por inteiro à santa – sua amada e odiada conjugue.
Não há mais solução.
Junta seu intestino jogado ali no gramado do oásis e sobe na árvore. Envolve as tripas no seu pescoço e ata um nó. Amarra-o a um galho rígido... E salta. Por dois segundos voa.
Não vê? Ele buscava os céus.
A digníssima santa, por quem tanto alimentara desconfiança misturada com ódio, continua altiva a tocar o céu.
Mais abaixo, suspendido por um rígido galho, uma espécie de pêndulo preguiçoso. Preguiçoso, pois, ali, vento não havia.

06:00

- Tive um sonho tão lindo e, quando acordei, pensei ainda estar a sonhar, pois você estava ao meu lado. Tão linda adormecida.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

A EXISTÊNCIA DE RUBIAN

Rubian perdido em seu labirinto sai a procura de ar.
Duas horas a mergulhar, nadando na calçada de pedras brancas da Praça Rui Barbosa; ele se perde, sem ar.
Duas horas a nadar, mergulhando no verde escuro das árvores da Praça Osório; ele se perde, sem ar.
O relógio da praça está parado: nove horas.
Nem um minuto a mais: é hora de partir.
Quem sabe ele volte.
Contudo, os ponteiros não se movem, sempre é hora de partir.
Sem respirar Rubian existe, seja onde for.

sábado, 7 de junho de 2008

O SENHOR DA BANCA E SUA VIDA SECRETA

“Vai lá, manda brasa!”, são as palavras roucas que eu ouço após catar umas moedas escondidas no bolso e pedir um cigarro. Quem as diz é o senhor da banquinha. Um sujeito muito peculiar de olhos azuis pálidos, esbugalhados por detrás dos óculos de lentes espessas. Os cabelos, ¾ grisalhos e 2/3 já ausentes, moldam uma careca digna de louco. Pois o que lhe resta de cabelo, está sempre esvoaçado, parecendo que os fios têm vida própria e lutam para se descolarem do couro cabeludo. Aliás, todos os trejeitos do senhor da banquinha desenham um louco por detrás do balcão, repleto de cigarros para os jovens e balas para a piazada.
Desconfio que o velho da banca não ocupe seus dias somente com os “Vai lá, manda brasa!”, creio que seja um escritor. Desses que mantém sigilo extremo e até usam pseudônimo para assinarem suas obras. Imagino-o fechando a banca depois de um longo dia de trabalho acompanhado dos cigarros, balas e clientes. E se dirigindo a algum café da Rua XV.
Sentado, com o olhar atento; ouvidos aguçados; o bloco e a caneta na mão; a xícara de café meio cheia pousada sobre a mesa de canto; anota todas as histórias que consegue ouvir. Transcrevendo-as a fim de não perder nenhuma sensibilidade sequer; nenhuma emoção sequer. O senhor da banca utiliza-se do anonimato para fazer-se quase invisível, apenas um móvel ali parado, um abajur talvez.
Qualquer dia desses, após o tradicional “Vai lá, manda brasa!”, irei perguntar para o senhor da banquinha como anda sua vida literária, se está numa fase criativa e tudo mais, e, se de fato for escritor, pedirei um descontinho nalguns livros dele. Mas, se ele não for um, quem se passará por louco na história toda, serei eu.

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Essa foi pro Dalton Trevisan.
Dalton Trevisan viaja por Curitiba.

# Documentário: Daltonismo

terça-feira, 3 de junho de 2008

PUTA QUE TE PARIU

Puta que pariu! Sim, essa é a expressão certa pra agora. É uma mistura de desespero e de confusão quanto ao futuro, ao meu futuro. Eu realmente não sei mais qual caminho trilhar. Às vezes o mais fácil não é o mais adequado. Eu acabo desperdiçando um potencial. Na verdade, um suposto potencial, pois eu também não sei ao certo se realmente o tenho ou não.
E acabo dizendo puta que pariu ao dobro quando eu olho a minha volta e nada me atrai. Pessimismo. Acredito que ninguém queira conviver com tal pessoa dona dessa visão. Quem sabe preciso mesmo de um oftalmologista. Ou de uma puta. Não daquela que te pariu, alguma outra.
É verdade. Uma vez me disseram: “Não planeje tanto assim, faça mais.” É verdade, meu deus, quem foi que disse isso me pergunto agora. Talvez a puta. Aquela que você conhece bem. Ah, vai à merda você, sua mãe, e todas as teorias medíocres e estereotipadas dela. Eu diria (a ela, quem sabe): “Muito fácil falar, quero ver é fazer”.
Quanto ao meu futuro? Realmente estou quase a dizer: “Foda-se”.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

TINTA PRETA, O FUTURO

Futuro escuro.
É algo confuso
e obscuro hoje.
Do amanhã vêm morcegos.

Tinta preta.
O papel em branco
preenchido de preto.
Isso é futuro, futuro escuro.

Sem sonhos.
Hoje, nenhum mais.
Acordei atordoado.
Ainda de olhos fechados.

domingo, 25 de maio de 2008

E NO FIM AMANTE

A luz vermelha pisca.
Um instante.
A luz vermelha torna a piscar.
Vejo somente o seu brilho refletido em algo escuro à minha frente. É na penumbra que a luz se faz enxergar.
Torna a piscar. Brilha, me atormenta.
Penumbra.
Eu deitado numa cama sem-vergonha. Sinto meus ossos contra o colchão vagabundo e murcho.
A luz pisca.
Alguma boca assobia uma canção.
É uma canção de ninar.
A luz vermelha. Meus ossos. Assobio. Escuridão.
Penso em Marília. Belos cabelos os dela.
Devaneio de olhos abertos: eu e ela num jardim, o sol refletindo em nossos olhos.
O devaneio se esvaece.
É a luz vermelha outra vez.
Acordou-me. Desviou-me a atenção. E fez-me aflorar outras idéias. Idéias malévolas.

Idéias impertinentes:
Da onde está vindo esse maldito brilho vermelho?! Vermelho que me lembra tanto sangue. Sangue humano, animal... Que seja! Mas sangue.
A luz volta a piscar.
Sinto meus ossos cada vez mais pesados.
O assobiador não pára, a canção parece ser longa ou ele já a repetiu várias vezes e eu nem percebi.
Aperto as mãos dela junto ao meu peito. Que mãos delicadas. Que cabelos cheirosos. Que corpo esbelto. Contemplo-a mesmo no escuro. Acaricio-a.
Mantenho meus olhos abertos.
Por instantes somente a escuridão. Mas logo vem a luz.
A luz vermelha continua a me desafiar.

O assobio cessou. A luz ainda não.
O brilho volta, refletido na minha frente. Vem e me acusa. Despeja aos meus olhos este vermelho-sangue. Um borrão vermelho estampado do tamanho de uma cabeça.
A mão dela junto ao meu peito.
A luz vermelha e o sangue que foi derramado.
Há pouco, um respirar foi interrompido.

Eu e ela na cama deitados lado a lado. Afundo meus dedos nos seus cabelos lisos. Percorro com os dedos, do começo ao fim dos fios. Aperto a sua mão, os dedos são finos e frágeis, trago-a junto ao meu peito e a levo até minha boca beijando-lhe. A luz vermelha outra vez. Aquele borrão-sangue do tamanho de uma cabeça.
Porém as mãos dela estão frias demais.
Sinto calafrios.
Sinto o silêncio.
A penumbra.
A luz vermelha.
O sangue.
Sinto-me, pela primeira vez, assassino.
- Durma em paz, meu amor.
Sinto-me, pela primeira vez, amante.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

DO PSEUDOBEM-ESTAR AOS REMÉDIOS

Tenho um apartamento branco no centro da cidade.
Minha namorada é linda.
Mas às vezes sou um pouco doentio.
Às vezes sinto-me corroído por dentro.

(o tempo passa)

Trouxeram-me remédios da farmácia da rua ao lado.
Minha namorada fugiu.
Mas às vezes eu a vejo em mim.
Às vezes sinto-me preso a ela ainda.

(o tempo passa e voa)

Troco olhares doentios comigo mesmo.
E vejo as coisas assim:
Dentro de mim, é somente ela.
Fora de mim, são só os remédios.

(o tempo voa e leva pra longe)

Tenho agora uma sala só minha afastada da cidade e de tudo.
Minha namorada nem me viu.
Às vezes me carregam pra fora dessa sala.
E meus olhos vêem apenas jardins desbotados.

(é tempo de remédios)

Na sala escura, além da solidão:
Uma janela sem vidros.
Uma porta de ferro.
E remédios.

terça-feira, 20 de maio de 2008

DURMA, É MELHOR

Não.
Durma, é melhor.
Não acha? Pense em algo bom, sonhe com bosques e jardins.
Não consegue? Claro que consegue. Procure em si resquícios da sua infância.
Nunca teve? Procure então fechar os olhos e esquecer.
Esqueça tudo, apenas vislumbre o escuro ao cerrar os olhos.

Sei que se cansou de tudo. Sei também que o futuro não te atrai mais.

Onde eu estou? Estou há tempos ao seu lado, nunca me percebeu?
Eu sei disso. Sempre sussurrei ao seu ouvido, nunca me deu atenção.
E é agora, quando já está tudo consumido, tudo dado por acabado, que enfim me ouviste.
Pois não pare agora então.
Feche os olhos, vamos dormir.

O sonho é melhor.
Você ainda pode viver.
Você escolhe: morrer ou viver.
Não meu bem, isso não foi uma pergunta.

Sim. Estou indo, me acompanhe.


sábado, 17 de maio de 2008

TIQUETAQUEAR E CHATEAÇÕES

Eu odeio o tique-taque incessante.
É impossível dormir com ele.

Assim como as várias xícaras de chá,
Que não me deixam sair de casa.

Pelo menos eu não quero sair.

Na verdade, não quero nem dormir,
E nem sair de casa, e nem me chatear.

Porém o tiquetaquear me chateia muito.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

VOAR UMA VEZ

Da onde eu moro
O vento chega tão forte
Da onde eu moro
O vento corta tudo por onde passa

Onde eu moro é tão alto
Muito mais alto do que minha percepção alcança
Mas meus olhos vêem
Meus olhos me convencem de que o chão está próximo

O chão me convida
Eu gostaria, é um convite tentador
Quero tentar, estou encantado
Quero tentar, estou pirado
Voar uma vez, já sinto o vento

quarta-feira, 7 de maio de 2008

JUSTIFIQUE PELO PÓ

Oh, meu amor! Justifique minhas atitudes pelo pó.
Àquele que me traz bem-estar repentino e breve,
E que me leva (como água que escorre para o ralo) todas as esperanças da vida.
Justifique pelo pó, meu amor.